domingo, 1 de fevereiro de 2015

Saudades


A saudade é-me estranha.

Era um dos meus sentimentos-chave. Sofria que me fartava com as saudades mais ínfimas. As férias escolares de verão, por exemplo, devastavam-me. Não descansava enquanto as aulas não recomeçavam. Com o basquete, a mesma coisa, não suportava o mês de agosto, o único em que não havia treinos. Logo, não havia amigos, não havia nada.

Quando estive um ano fora, senti saudades de quem ficou cá. Mas não doía. Estavam aqui, estavam bem, eu voltaria... tudo ok. No regresso apressado, virei as costas a meia dúzia de pessoas com quem tinha criado laços fortes. As duas mais importantes, que não vi durante mais de uma década, com tanta dor, o meu coração esqueceu-as. E foi assim que descobri como suportar as saudades. Matá-las. Matar as saudades, literalmente.

O meu cérebro assassino ocupa-se da tarefa. Quando perco alguém que adoro, ela acaba com a dor.

E foi assim também no dia em que a minha avó Elisa foi viver para o Algarve. Fui criada com ela em criança, vivi com ela na adolescência e, naquela altura, ia lá a casa todos os dias. Almoçava, levava amigos (que ela tratava de adoptar como netos), íamos ao café, ela falava muito, eu ouvia-a a contar as mesmas histórias vezes sem fim, amarguras de infância que uma longa vida não apagou e que viveu até ao fim. A perda precoce da mãe, a saída da escola, o ter ido servir numa casa onde havia crianças (a quem ela carregava a mala até à escola e voltava depois para limpar os quartos), a morte de irmãos, as infidelidades do meu avô, o filho que adorava e que o meu avô havia maltratado... andava sempre à roda, sempre a sofrer, sempre a pensar como teria sido bom terem sido todos felizes.

Era a mais boa pessoa que conheci na vida. Foi tudo para mim. Em momentos em que outros me faltaram, ela estava lá. Foi avó, foi mãe, foi pai, foi amiga, foi a melhor bisavó do mundo, foi tudo mesmo. Poucas pessoas teriam merecido mais a felicidade, que ela nunca teve mais do que fugazmente. E, naquele dia em que partiu para o Algarve, comecei a perdê-la. A dor era tanta que não lhe telefonava, imagino como terá sofrido também com saudades minhas. Nunca se queixou das minhas ausências. Dizia que eu estava sempre no seu coração, telefonasse ou não.

Desculpava-me tudo. Amava-me infinitamente.

Hoje, que ela partiu de vez, voltaram as saudades, desta vez são tão grandes mas tão grandes que nem o meu cérebro as consegue amaciar, quanto mais matar. Também sinto remorsos, muitos, por todas as minhas falhas para com ela. Merecia que eu, nos últimos anos, lhe tivesse dado muito mais, ouvido muito mais. Amar eu amava-a, mas sufocada de dor numa masmorra qualquer lá para os lados do coração, que agora se abriu para me conduzir à terrível verdade de que não voltei a vê-la nem poderei corrigir os meus erros. E irei de viver esta saudade para sempre, assumindo toda a dor que ela acarreta.

Espero desesperadamente que exista a tal outra vida, onde ela estará à minha espera quando o cancro me levar.

T.






2 comentários:

Maria João disse...

Muitos beijos mana, as saudades são já muitas, mas ela, como bem sabes, anda por aí... e n\ão tenhas remorsos, porque ela de nós, só levou coisas boas, e podes ter a certeza, que ela estará sempre de braços abertos, quando chegar a hora de nos receber, e embora seja impossível, tenta não ficar triste, porque isso sim seria devastador para uma pessoa tão querida, e generosa como ela.
Avó mais querida e "fixe" do Mundo!
Muitos beijos, querida e pensa que privilégio tão grande tivemos, e continuaremos a ter, porque o amor nunca se esquece e ela ensinou nos bem o que é esse setimento, o maior de todos.

Maria João disse...

Tenho-me lembrado muitas vezes de quando ia à casa de Linda-a-velha estudar, ela dava-me almoço, lanche e muitas outras coisas mais. Passados todos estes anos, sempre nos lembrava desses dias nas nossas conversas. Dizia que me tinha adoptado como neta também.